E sai um pensamento fresquinho...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Caixinha de surpresas

Nunca tinha trabalhado na vida, nunca tinha tido um emprego. Confesso que os primeiros dias foram de um nervoso miudinho. Saía de casa com a mesma sensação que nos primeiros dias de escola de cada ano lectivo.

O primeiro dia correu bem, consegui interiorizar a maioria das informações que me foram dadas e sentia-me preparada pra enfrentar um dia sozinha em frente àquela coisa que no inicio se mostrava tão complicada mas que agora já não guarda qualquer segredos. Tirando o horário que não é dos melhores para quem até gosta de ter vida social (coisa que se já não tinha deixei definitivamente de ter) até nem é difícil ser-se operadora de caixa.

Quanto aos colegas? Até agora não tenho nada a apontar, eu sou uma espécie de terreno neutro ali dentro, sei quem não gosta de quem, o que este e aquele andaram a aprontar, segredos, e um pouco de cada um dos meus colegas. São todos amáveis comigo e por vezes até disputam entre si a quem irei eu ajudar quando houver pouca afluência de clientes às caixas.
Mas a minha maior surpresa veio de onde eu não esperava. As chefes-de-caixa são todas simpáticas, são quatro, e na verdade gosto mais de duas delas do que das outras duas, mas não é disso que quero falar.

Para evitar problemas, todos os funcionários lá do estaminé cada vez que querem comprar alguma coisa tem de ser uma chefe-de-caixa a passar as compras, pelo que sempre que vou lanchar a chefinha fica a saber o que será o meu lanche, a não ser que prefira ir lanchar ao bar (mas fica mais caro).


Diálogos entre mim e a minha chefe-de-caixa preferida (C.C.):

C.C.: Um chocolate, mas isso lá é lanche, agora é todas as semanas um chocolate?
Eu: Tem de ser (e sorriu para ela) olha que foi à conta dos chocolates que larguei os antidepressivos.
C.C.: (de cara mais séria e percebendo que estava mesmo a ser sincera) Então está bem! (E sorri)


Uma semana depois:

C.C.: Esta semana não levas chocolate?
Eu: Esta semana não, não me apetece...


Dois dias depois lá me deu uma das minhas recaídas nostálgicas e andei ligeiramente mais em baixo. Pensava eu que ninguém tinha reparado. No entanto, ia eu muito direita ao bar para trincar qualquer coisa na minha pausa do lanche quando de repente a chefinha chama-me e diz:

C.C.: Onde vais?
Eu: Vou ao bar.
C.C.:Não não vais...
Eu: Eu já apanhei os cestos! (E riu-me, porque passo a vida a esquecer-me que quando saímos da caixa devemos aproveitar pra levar os cestos para a entrada e ela passa a vida a chamar-me a atenção para isso).
C.C.: Não é isso. Não vais ao bar porque vais à loja comprar um chocolate! (sorriso cumplice, daqueles que só duas pessoas com algo em comum partilham).

E eu simplesmente sorri pra ela, dei a volta e lá fui comprar o chocolate...

"Mas pensavas que te ia deixar andar aí triste... Ainda espantavas os clientes!" E piscou-me o olho...

Nesse dia guardei o chocolate, não o precisei comer para me sentir melhor, bastou-me lembrar da preocupação de alguém, que me conhece à pouco mais de um mês, para me sentir bem comigo e com o mundo...

A minha chefe-de-caixa preferida é uma caixinha de surpresas! Obrigada Verinha :)


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